Vitrine da May: A vida acontece.

A vida acontece.


Melissa acordou e a primeira coisa que sentiu foi o cheiro forte de cigarro espalhado pela casa. Ela sentia saudades de quando acordava sentindo cheiro de amaciante e quando as cortinas do seu quarto tampavam o sol e o impediam de acorda-lá mais cedo porque queimava suas pernas, mas mês passado ela não teve dinheiro pra comprar cortinas, e nem vai ter nesse, provavelmente nem no próximo. Aliás, quando foi que ela parou de odiar esse cheiro de cigarro? Acho que nunca aconteceu na verdade, ela só se acostumou e engoliu as reclamações, isso, aliás, era o que Melissa fazia de melhor. Ela tentava se lembrar de como as coisas ficaram assim, de como -ou porque- ela trocou o travesseiro com cheiro de amaciante pela casa com cheiro de cigarro. Sei lá, só aconteceu. A vida acontece e as coisas vão acontecendo. A gente mente a primeira vez porque ok, só uma vez, e para de achar que mentir é tão grave assim, mente uma, dias, três, mente não só quando é "necessário", mas quando é cômodo. A gente desiste de uma ou duas coisas, com o tempo acaba desistindo de quase tudo, e todos, porque desistir também virou meio normal depois que perdeu uma ou duas pessoas importantes na sua vida. Com o tempo aquelas bebidas alcoólicas que você tanto tinha medo e desprezava quando era criança vira sua melhor melhor amiga, com o tempo você para de cumprimentar as pessoas que conhece e deixa de conhece-las, você vai esquecendo aniversários, vai deixando o cansaço - e a preguiça- tornarem-se maior que a força. O tempo passa e você esquece de algumas roupas que tem, de algumas promessas de amor e amizade, esquece de alguns "pra sempre", com o tempo você vai perdendo o medo de algumas coisas, com o tempo você não tem mais medo de perder, ou das coisas acabarem. As coisas não acontecem de um dia pro outro, elas vão acontecendo aos poucos, com os pequenos gestos e as decisões mais irrelevantes que tomamos todos os dias, mas ai um dia você percebe e não se reconhece mais, sabe muito bem do que não gosta, mas engole e atura, mas esqueceu de tudo o que gosta. Esqueceu de como rir sem parar e de como dizer não. Esqueceu do que -e de quem- te faz bem. Esqueceu de ter medo de perder, de segurar pra não acabar, de cuidar das suas plantas, de arrumar seu armário e encontrar as roupas velhas. Esqueceu de deixar a janela aberta pro ar circular, esqueceu de ler. Algumas coisas você nem esqueceu mesmo, só ficou com preguiça. Dai um dia você acordou num quarto com um cheiro forte de cigarro, que você odeia mas atura, numa cama dura e desconfortável, com o sol queimando suas pernas, cheia de dores que não sabe da onde vem, mas sem nenhum amor, amor a nada e a ninguém, porque, simplesmente, a vida aconteceu. 
Talvez amanhã Melissa lave a fronha do travesseiro usando amaciante.










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